
Meus passos me levam sempre ao encontro dos que nada têm.
E, curiosamente, meus pés feridos não doem tanto quanto as feridas sociais que encontro pelo caminho.
Chamam-me Padre Véio e nesse nome simples carrego a força imensa de um amor antigo pelo Reino.
Hoje foi mais um dia de padre em missão, desses que não cabem na agenda, mas transbordam na alma.
Sinto-me pequeno, limitado, frágil… mas é justamente aí que a coragem me visita.
Ela chega mansa e me empurra para fora de mim, na direção de quem precisa.
Vou por aí com meu canto em cada canto, porque descobri que o Evangelho também se canta com os pés, se reza com as mãos, se anuncia com presença.
Hoje não parei: conjuguei oração com ação, como quem sabe que fé parada adoece.
Destinei-me ao encontro dos que moram nos relentos e relatos duros da vida.
Falei de Cristo, mas não apenas em palavras levei a concretude d’Ele no olhar, no gesto, na escuta demorada.
Ao lado da comunidade barriguda dos Ninas, muitos barracos improvisados, encontrei muitas famílias, muitas histórias, muitas casas que não existem, muitos sonhos dormindo ao relento.
Hoje a estrada do Reino me levou ao encontro da dor.
Da dor silenciosa dos que esperam por Deus sem saber que Ele já estava chegando, caminhando cansado, com os pés feridos, vestido de padre, chamado Véio… mas carregando no peito a esperança teimosa de que o amor ainda é capaz de mudar destinos.

